Nada de Perguntas…
Por: scott noia
Há quem acredite no destino. Eu, até há pouco tempo não acreditava. Redundância à parte, foi o “destino” que se encarregou disso.
A meio dos trintas, e casada há onze, com um casamento de sonho, amava o meu marido, e só havia um assunto que provocava algum tipo de atrito entre nós, era sermos pais, mas por mais que o meu marido me tentasse convencer, não me achava capaz de lhe satisfazer esse sonho.
No final de Junho do ano passado, houve um congresso de segurança e higiene no trabalho em Lisboa, e eu como responsável desse departamento numa multinacional, tive que ir, confesso, um pouco contrariada, mas são ossos do ofício. Assim, lá apanhei o inter cidades numa terça-feira de manhã. Sempre gostei de andar de comboio, dá oportunidade de aproveitar o tempo de duas maneiras; seja para trabalhar ou para descansar, enquanto nos deslocamos.
Perto de mim ia uma senhora com um menino que devia ter uns dois anitos, lindo como todas as crianças enquanto são pequenas, Dei por mim outra vez a pensar nas ultimas palavras que o Daniel, o meu marido, me dissera ao despedir-se de mim nessa manhã. “Pensa nisso, eu peço-te por favor, eu amo-te, e amar-te-ei sempre, aconteça o que acontecer. Cada vez mais. Dá-me um filho.” Despedimo-nos com um beijo. Tinha medo de, ao realizar o sonho dele a nossa relação mudasse de tal modo que ficasse em risco.
Para esquecer esse assunto, liguei o portátil. Fui enviando alguns mails e anotando ideias do que seria interessante ver discutido no congresso.
Cheguei a Lisboa, e um táxi depois estava no hotel por volta do meio dia, depois de fazer o registo de entrada deixei as coisas no quarto e desci ao restaurante para almoçar, a meio do almoço liguei ao Daniel, disse-lhe que tinha feito a viagem sem stress, que os comboios tinham mudado imenso desde os tempos em que eu fazia aquela viagem todas as semanas, nos meus tempos de faculdade, recomendou-me que pelo menos que me divertisse e aproveitasse aqueles seis dias num hotel de cinco estrelas, com tudo pago, que eram uma das vantagens destes congressos. Desligámos. Fiquei aliviada por ele não ter falado outra vez no mesmo.
Já quase a acabar a sobremesa, absorta nos meus planos de como iria gastar o tempo até às seis, hora a que seriam iniciados os trabalhos, fui desperta por uma voz que, embora não a ouvisse há séculos, tive a certeza a quem pertencia.
- Avelã! E eu a pensar que seria mais um fim-de-semana de seca…
Pedro. O Pedro da faculdade. Sempre me tinha chamado de Avelã, por causa da cor dos meus olhos. Nunca mais o tinha visto desde aí. Éramos os melhores amigos na faculdade, ele, extremamente inteligente, e com um sentido de perspicácia que lhe davam uma argúcia quase felina, complementado com uma sinceridade absoluta, por vezes até sincero demais, ao ponto de me dizer sem pudor nenhum que eu era a mulher dos sonhos dele, mas que não queria sequer pensar nisso, pois conhecia-se bem demais para destruir uma amizade tão forte com outras coisas, pois o mais certo seria, na primeira oportunidade ele fazer merda e enrolar-se com uma caloira qualquer. Ele era assim. O que ele nunca soube foi que eu me estava a marimbar para as consequências, que por mim, desde que o tivesse, só que fosse por uma noite, pagaria o preço que fosse preciso. Mas nunca tive coragem de lhe dar a conhecer o que sentia por ele. O tempo foi passando, até que na festa de formatura foi com a garganta seca que o vi sair com uma fulana qualquer. Soube mais tarde que tinham casado.
Nisto baixa-se para me cumprimentar e pousa-me a mão no ombro provocando-me um arrepio ao mesmo tempo que me dá um beijo na cara. Perguntou-me se estava só, respondi que sim e convidei-o para se sentar, ia agora mesmo pedir café. Aceitou com um sorriso.
Fomos pondo a conversa em dia, ele divorciara-se da tal fulana da faculdade passado um ano. Voltara a casar havia uns anos, tinha um casalinho, ele com cinco, e ela com dois e meio. Mostrou-me uma foto deles com a mãe. Eram lindíssimos. Senti o monstro de olhos verdes a revoltar-se dentro de mim ao imaginar por um segundo que era eu na foto. Moravam em Madrid. Depois de ter trabalhado durante algum tempo numa empresa a desempenhar a mesma função que eu, tinha fundado uma empresa própria de consultadoria e era nesse âmbito que ali se encontrava. Pu-lo ao corrente do que tinha sido a minha vida até ali, e fomos falando de coisas triviais até que de repente tivemos uma daquelas incómodas pausas na conversa.
(continua)
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